#18 Os Vira-Latas
A posição em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo

Em 1958, pleno clima de pré-Copa Mundial na Suécia, Nelson Rodrigues escreveu um curto texto intitulado “Complexo de Vira-latas” para a revista Manchete esportiva. Esse texto é uma preciosidade da história brasileira. Em poucas palavras, Nelson expressou sua completa esperança no time brasileiro, uma esperança que mais tarde acabou sendo bem recompensada: o Brasil veio a conquistar seu primeiro título de campeão mundial.
“Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: - o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: - se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.”
Tem algo de verdadeiramente encantador em ler essas palavras, sabendo o que aconteceu no fim. Ao mesmo tempo, é deprimente saber que esse texto também é uma preciosidade da história brasileira por ter cunhado um termo há mais de 60 anos que ainda se aplica tão bem ao povo brasileiro hoje:
“Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo.”
Complexo de Vira-latas, Nelson Rodrigues. 31 de maio de 1958.
Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Mas acredito que recentemente estamos testemunhando uma mudança de maré. O orgulho brasileiro anda, por incrível que pareça, em alta. Na verdade, o orgulho latino está em alta, e talvez pela primeira vez o brasileiro se reconheça gigante não pela própria natureza, mas como parte de toda uma América que sinceramente se beneficiaria de se ver mais unida.
Ahora todos quieren ser latinos, né?
Os Vira-latas
Passando um pouco adiante, nas semifinais da Copa de 2014, o mundo testemunhou a maior derrota brasileira de todos os tempos. Você sabe do que eu estou falando, mas caso não saiba, foi o infame sete a um. Se você assistiu esse jogo ao vivo ao lado de pessoas mais velhas, você provavelmente viu a luz nos olhos deles indo embora.
Eu nem gosto de futebol, mas eu sempre amei torcer pelo Brasil, principalmente quando há tanta gente torcendo junto. Esses são os momentos que te fazem parar e pensar “ah, é mesmo, eu sou uma pequena parte de algo maior”. Seja nas copas, nas olimpíadas, no carnaval — a enormidade do nosso país ecoa.
Nessa fatídica instância em 2014, eu lembro de sentar na frente da TV com uma blusa amarela, BRASIL estampado bem grande no peito. Minha mãe tinha comprado cornetas verdes e amarelas, e a gente tinha bandeirinhas do Brasil presas nas janelas do carro. Carros decorados buzinavam uns para os outros quando se deparavam na rua, e haviam bandeiras enormes pintadas pelos asfaltos. A copa era nosso lugar de fala, mesmo que já tivesse passado um bom tempo desde que o Brasil estivesse no ápice do seu jogo.
Então lá estava eu, com minha blusa amarela, sem ter a mínima noção do que impedimento queria dizer, piscando para a tela enquanto a Alemanha fazia o mesmo gol, de novo e de novo sem parar. Lá estava eu com minha blusa amarela, indo convencer a minha mãe a voltar a assistir quando ela saiu no meio do jogo, e lá estava eu quando ela disse em completa desolação “você não entende! Você não viu como eles jogavam antes, era lindo de assistir! Isso é uma desgraça, eles estão fazendo uma desgraça”.
A desolação foi nacional. O sete a um derrotou o orgulho Brasileiro, não porque todo mundo ama futebol, mas porque fomos humilhados publicamente no auge da nossa torcida, no ápice da nossa união enquanto povo, em casa. Depois disso, eu só vi carros decorados com a mesma intensidade quando certos movimentos políticos decidiram que a bandeira do país pertencia só para eles, o que é humilhante por si só.
Nuestro norte es el sur
Agora estamos em 2026, e qual é a posição que o brasileiro escolhe se colocar, voluntariamente, em face do resto do mundo?
Se pararmos para pensar no salto quântico entre o uniforme olímpico do time Brasil na Olimpíada 2024 vs. o da Olimpíada de Inverno 2026, eu diria que estamos nos colocando em uma posição atual bem boa.
Brincadeiras a parte, teremos copa esse ano e embora eu duvide que alguém tenha esperanças reais que o hexa venha ai, eu ainda acho que vamos torcer com mais entusiasmo que as copas passadas. Algo entre o reconhecimento internacional do nosso cinema, a alegria do carnaval contagiando tudo e as olimpíadas acontecendo, faz tudo parecer merecedor de mais festança.
Eu, pelo menos, quero torcer com mais entusiasmo esse ano. Eu quero fazer maquiagens verde e amarelas, pintar minhas unhas com orgulho brasileiro, colocar fitas decorativas no cabelo. Eu quero usar as minhas cores com o peito estufado, certa de que essa bandeira é minha, assim como ela é de todos que chamam essa nação de casa.
E eu meio que queria balançar minha bandeira junto a todas as outras bandeiras da América em meio à uma grama humana, dizendo God Bless America. Mas essa parte eu deixo para o Bad Bunny.
Eu não sei que rumo o meu Brasil vai tomar pelos próximos quatro anos, mas quero me certificar de demonstrar orgulho pela minha cultura e meu povo apesar dos apesares. Talvez uma nova e irremediável desilusão me aguarde no futuro próximo, mas agirei com dignidade mesmo assim. Acho que é sempre um bom momento para nos colocarmos em pé de igualdade, voluntariamente, em face do resto do mundo.
Até a próxima vez que der Na Telha,
Cici.
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Aqui Na Telha escrevo meus pensamentos da madrugada, minhas pesquisas meio inusitadas, e falo da vida bem vivida que tento ter. Quando dá Na Telha. No Instagram, compartilho minhas colagens em horários estranhos. E se por acaso você quiser aprender inglês, conte comigo.






o brasil tá crescendo bastante na cultura pop e no geral, os próximos anos é pra ser um boom bem louco de exportação de brasil. já virou point de gringo vir passar férias, os cantores vem tudo pra cá não pra fazer show mas só pra se divertir, e virou moda. não sei o que vá sair disso, mas to de olho pq aí vem coisa
Crying in Brazilian 🇧🇷 cheers 🍻